
Língua e cultura constituem dimensões centrais da experiência migratória e desempenham papel importante na construção das identidades individuais e coletivas. Para migrantes e seus descendentes, a língua pode funcionar simultaneamente como instrumento de comunicação, mecanismo de integração à sociedade receptora e meio de preservação de vínculos familiares, culturais e sociais com o país de origem. Os processos migratórios produzem, assim, contextos nos quais diferentes línguas, identidades e formas de pertencimento coexistem e se transformam ao longo das gerações.
No contexto das migrações internacionais, é importante distinguir diferentes experiências linguísticas. Migrantes da primeira geração geralmente chegam ao país de destino com uma língua adquirida e utilizada em seu processo de socialização no país de origem. Para seus descendentes, essa língua pode tornar-se uma língua de herança (heritage language), aprendida principalmente no ambiente familiar ou comunitário e utilizada em diferentes graus de proficiência. Paralelamente, a língua predominante da sociedade receptora tende a adquirir importância crescente por meio da escola, do trabalho, das instituições e das relações sociais (Fishman, 1991; Polinsky & Kagan, 2007).

A relação entre língua e cultura é particularmente importante nesse processo. A linguagem constitui um dos principais meios pelos quais conhecimentos, valores, memórias, narrativas, tradições e práticas culturais são transmitidos entre indivíduos e gerações. Ao mesmo tempo, identidades culturais não são fixas nem dependem exclusivamente de uma única língua. A experiência migratória pode produzir identidades multilíngues e multiculturais, nas quais indivíduos combinam diferentes repertórios linguísticos e referências culturais de acordo com os contextos sociais nos quais participam.
O domínio da língua predominante do país de destino constitui uma dimensão importante da integração. A proficiência linguística pode ampliar o acesso ao mercado de trabalho, à educação, aos serviços públicos, às instituições e à participação social e cívica. Estudos comparativos mostram que o conhecimento da língua do país de residência está fortemente associado à capacidade dos imigrantes de utilizar suas qualificações e participar do mercado de trabalho e da sociedade de forma mais ampla (OECD, 2021, 2023). A aprendizagem dessa língua representa, portanto, um recurso fundamental para ampliar oportunidades e reduzir barreiras à participação.
A aquisição da língua predominante da sociedade receptora, entretanto, não exige necessariamente o abandono da língua de origem. A literatura sobre bilinguismo e línguas de herança demonstra que indivíduos podem desenvolver competências em mais de uma língua, embora os níveis de proficiência e os padrões de uso variem significativamente. O bilinguismo deve ser entendido como um repertório linguístico dinâmico, influenciado pela família, escola, comunidade, redes sociais e oportunidades de utilização das diferentes línguas.
A transmissão intergeracional da língua de herança constitui um dos principais desafios enfrentados por famílias migrantes. Em sociedades nas quais uma língua dominante prevalece na educação, no trabalho, na mídia e na vida pública, pode ocorrer um processo de mudança linguística (language shift) ao longo das gerações. A primeira geração tende a utilizar predominantemente a língua de origem, enquanto as gerações seguintes frequentemente ampliam o uso da língua dominante e podem apresentar níveis progressivamente menores de proficiência na língua familiar (Fishman, 1991).
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A manutenção da língua de herança depende de diversos fatores. O uso da língua no ambiente familiar, a frequência das interações com familiares e comunidades que a utilizam, o acesso a escolas e programas educacionais, a disponibilidade de livros e meios de comunicação e as atitudes sociais em relação ao multilinguismo podem influenciar sua transmissão. Organizações comunitárias, escolas de língua, centros culturais, bibliotecas, instituições religiosas e associações de imigrantes podem criar espaços nos quais crianças, jovens e adultos utilizam e desenvolvem a língua de herança fora do ambiente doméstico.
As famílias exercem papel decisivo nesse processo por meio de escolhas cotidianas sobre quais línguas utilizar em casa, com parentes e em diferentes atividades. Essas práticas, às vezes descritas como políticas linguísticas familiares, não resultam apenas de preferências individuais: são influenciadas pelo domínio linguístico dos pais, pelas atitudes das crianças, pela composição da família, pela escola e pelo prestígio social atribuído às diferentes línguas. A transmissão de uma língua de herança, portanto, exige oportunidades regulares de uso e não ocorre automaticamente.
A educação formal também pode favorecer ou dificultar a manutenção do multilinguismo. Programas bilíngues, cursos de língua de herança e práticas escolares que reconhecem repertórios linguísticos diversos podem ampliar as oportunidades de aprendizagem e uso. Em contraste, ambientes nos quais apenas a língua dominante é valorizada podem acelerar a substituição linguística e reforçar a percepção de que a língua familiar possui menor utilidade social.
A relação entre língua e identidade também pode mudar ao longo da vida. Algumas pessoas mantêm forte identificação cultural mesmo com proficiência limitada na língua de herança; outras recuperam ou aprofundam seu uso na vida adulta por razões familiares, profissionais ou identitárias. Essa diversidade reforça a necessidade de compreender a manutenção linguística como um processo gradual e variável, e não como uma simples escolha entre preservar ou abandonar uma língua.
A preservação linguística também possui uma importante dimensão familiar e identitária. O conhecimento da língua de herança pode facilitar a comunicação entre gerações e permitir que filhos e netos de migrantes mantenham relações mais diretas com familiares, histórias e referências culturais associadas às sociedades de origem. Ao mesmo tempo, a intensidade desses vínculos varia entre indivíduos e famílias, e a manutenção de uma língua não deve ser considerada condição necessária para a preservação de uma identidade cultural.
FISHMAN, Joshua A. Reversing Language Shift: Theoretical and Empirical Foundations of Assistance to Threatened Languages. Clevedon: Multilingual Matters, 1991.
POLINSKY, Maria; KAGAN, Olga. Heritage languages: In the “wild” and in the classroom. Language and Linguistics Compass, v. 1, n. 5, p. 368–395, 2007. DOI: 10.1111/j.1749-818X.2007.00022.x.
OECD. Language Training for Adult Migrants. Paris: OECD Publishing, 2021.
OECD. Indicators of Immigrant Integration 2023: Settling In. Paris: OECD Publishing, 2023.

Tatiana Fróes Dutra e Mello, 2014.
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