
O transnacionalismo tornou-se uma perspectiva central para compreender as migrações internacionais contemporâneas. Migrantes podem manter vínculos econômicos, sociais, culturais e políticos com seus países de origem ao mesmo tempo que constroem novas relações nos países de destino e com comunidades dispersas em outros países. Essas conexões atravessam fronteiras nacionais e contribuem para a formação de espaços sociais nos quais indivíduos, famílias, organizações e instituições participam simultaneamente de relações estabelecidas em mais de uma sociedade (Glick Schiller, Basch & Blanc-Szanton, 1992; Levitt & Glick Schiller, 2004).
A perspectiva transnacional questiona, portanto, a ideia de que a migração implica necessariamente uma ruptura progressiva com o país de origem. A incorporação à sociedade receptora e a manutenção de vínculos transnacionais não constituem processos necessariamente contraditórios. Migrantes podem participar da vida econômica, social e política do país de residência enquanto mantêm relações familiares, culturais, econômicas e institucionais com o país de origem. A experiência migratória passa, assim, a ser compreendida não apenas em termos de deslocamento entre territórios, mas também como participação em redes e relações que atravessam fronteiras.

Essas relações constituem o que a literatura denomina transnational social fields — campos sociais formados por redes de relações através das quais circulam pessoas, informações, recursos, ideias, práticas e identidades. Levitt e Glick Schiller (2004) distinguem, nesse contexto, ways of being e ways of belonging: indivíduos podem participar regularmente de práticas e relações transnacionais sem necessariamente desenvolver uma identidade transnacional explícita, enquanto outros combinam práticas concretas com formas conscientes de identificação e pertencimento a mais de uma sociedade.
Uma das contribuições mais importantes dessa literatura é o conceito de social remittances, desenvolvido por Peggy Levitt (1998, 2001). Diferentemente das remessas financeiras, as remessas sociais correspondem à circulação de ideias, valores, comportamentos, identidades, conhecimentos e formas de organização entre migrantes e comunidades de origem. Esses fluxos podem ocorrer em múltiplas direções e influenciar práticas familiares, relações de gênero, participação política, empreendedorismo, expectativas educacionais e formas de organização comunitária. O transnacionalismo envolve, portanto, não apenas a circulação de dinheiro e bens, mas também a transferência e transformação de práticas sociais e culturais.
O desenvolvimento das tecnologias de comunicação e transporte ampliou significativamente a intensidade e a frequência dessas conexões. Internet, smartphones, redes sociais, serviços de mensagens e videoconferências permitem contatos cotidianos entre pessoas geograficamente distantes, enquanto a expansão do transporte internacional facilita, embora de forma desigual, viagens entre países de origem e destino. Essas transformações reduziram os custos de manutenção de relações através das fronteiras e possibilitaram formas de interação transnacional que anteriormente eram mais lentas, caras e esporádicas.
As remessas financeiras constituem uma das manifestações mais visíveis dessas relações. Segundo o Banco Mundial, as remessas oficialmente registradas destinadas a países de baixa e média renda alcançaram aproximadamente US$ 656 bilhões em 2023, superando os fluxos de investimento estrangeiro direto e de assistência oficial ao desenvolvimento. Esses recursos contribuem para o consumo e a estabilidade econômica das famílias e podem financiar educação, saúde, habitação e atividades produtivas, ao mesmo tempo que constituem importante fonte de divisas para diversos países (World Bank, 2024).
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As práticas transnacionais também podem ser observadas por meio do modelo dos “5 Ts”, utilizado por Manuel Orozco para analisar diferentes formas de engajamento econômico entre migrantes e países de origem. Essas dimensões incluem Transportation, relacionada às viagens internacionais; Tourism, associada ao consumo e às atividades econômicas durante visitas ao país de origem; Telecommunications, referente à comunicação através das fronteiras; Transfer of Money and Capital, que inclui remessas e investimentos; e Nostalgic Trade, relacionado ao consumo e comércio de produtos associados ao país de origem (Orozco, 2005). Em conjunto, essas práticas evidenciam que os efeitos econômicos da migração ultrapassam amplamente o envio de remessas monetárias.
O transnacionalismo também possui importantes dimensões políticas e cívicas. Migrantes podem participar de eleições, associações, campanhas, organizações comunitárias e movimentos sociais relacionados tanto aos países de origem quanto aos de residência. Paralelamente, diversos Estados desenvolveram mecanismos para manter relações com suas populações no exterior, incluindo voto extraterritorial, reconhecimento da dupla nacionalidade, instituições de representação da diáspora e políticas específicas de engajamento com emigrantes. Essas práticas contribuem para redefinir as relações tradicionais entre cidadania, participação política e território (Bauböck, 2003; Levitt & de la Dehesa, 2003).
No campo econômico, migrantes também podem atuar como empreendedores, investidores e intermediários entre mercados. Redes transnacionais podem facilitar a circulação de capital, conhecimentos, tecnologias e oportunidades comerciais, contribuindo para a formação de negócios e investimentos que operam através das fronteiras. Entretanto, a capacidade de participar dessas atividades varia consideravelmente de acordo com renda, situação migratória, capital humano, redes sociais e condições institucionais nos países de origem e destino.
A simultaneidade é, portanto, um elemento central dessa perspectiva. Relações mantidas através das fronteiras não substituem necessariamente as relações locais; elas podem sobrepor-se a elas. Um mesmo indivíduo pode trabalhar, participar de instituições e construir vínculos no país de residência enquanto acompanha decisões familiares, realiza investimentos ou participa de atividades sociais no país de origem. Essa sobreposição de escalas ajuda a compreender por que pertencimento e integração não precisam estar confinados a um único território.
É importante, portanto, não tratar o transnacionalismo como uma experiência universal ou igualmente intensa entre todos os migrantes. Nem todos mantêm relações frequentes com o país de origem, e a natureza desses vínculos pode mudar ao longo do tempo e entre gerações. Distância geográfica, recursos econômicos, situação migratória, tecnologias disponíveis, relações familiares e contextos políticos influenciam a intensidade e a duração das práticas transnacionais (Portes, Guarnizo & Landolt, 1999).
BAUBÖCK, Rainer. Towards a political theory of migrant transnationalism. International Migration Review, v. 37, n. 3, p. 700–723, 2003.
GLICK SCHILLER, Nina; BASCH, Linda; BLANC-SZANTON, Cristina (eds.). Towards a Transnational Perspective on Migration: Race, Class, Ethnicity, and Nationalism Reconsidered. New York: New York Academy of Sciences, 1992.
LEVITT, Peggy. Social remittances: Migration driven local-level forms of cultural diffusion. International Migration Review, v. 32, n. 4, p. 926–948, 1998.
LEVITT, Peggy. The Transnational Villagers. Berkeley: University of California Press, 2001.
LEVITT, Peggy; DE LA DEHESA, Rafael. Transnational migration and the redefinition of the state: Variations and explanations. Ethnic and Racial Studies, v. 26, n. 4, p. 587–611, 2003.
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OROZCO, Manuel. Diasporas, Development and Transnational Integration: Ghanaians in the U.S., U.K. and Germany. Washington, DC: Institute for the Study of International Migration and Inter-American Dialogue, 2005.
PORTES, Alejandro; GUARNIZO, Luis Eduardo; LANDOLT, Patricia. The study of transnationalism: Pitfalls and promise of an emergent research field. Ethnic and Racial Studies, v. 22, n. 2, p. 217–237, 1999.
WORLD BANK. Migration and Development Brief 40: Remittances Slowed in 2023, Expected to Grow Faster in 2024. Washington, DC: World Bank, 2024.

Yolanda Gonzalez-Rabago, 2015.




Luis Eduardo Guarnizo, Alejandro Portes, William Haller, 2003.

Ludger Pries, 2002.


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